A Mulher Forte e Empoderada: A Karen de Stranger Things Como Heroína Autêntica

A Karen de Stranger Things é uma personagem que me surpreendeu de forma muito positiva e já fez a última temporada valer totalmente a pena. Aos 5 minutos do primeiro episódio já é simplesmente a cena mais badass de todas as temporadas. Esse pequeno trecho fez o completo oposto do que o primeiro episódio de The Witcher e gerou o desejo de terminar de ver a série.
O que mais me fascinou na cena é que não era um homem ou uma cópia de um, pois parece que Hollywood esqueceu como se faz uma personagem mulher "fodona", todas elas se resumiam a um homem sem pênis, como se a personificação da coragem fosse um homem bruto e a mulher, para ser corajosa, tinha que emular os trejeitos masculinos, incluindo as piores características comumente encontradas em homens.
A protagonista feminina era sempre uma mulher fria, distante, egoísta e cruel, até o momento que ela era conquistada pela vítima que ela defendia e aprendesse a amar e ser feliz de novo. Quando não era isso, era a Mary Sue, tão perfeita que era impossível de qualquer pessoa se identificar. Não havia espaço para mulheres humanas na industria cinematográfica.
Mas a Karen não, ela não era um projeto de homem ou uma máquina sem problemas, ela era uma mulher invisível para o próprio marido (temporada que ela se envolve com o irmão da Max), relegada a dona de casa e subjugada a empregada dos asilados na casa dela.
Ela era uma mulher que sentia, sofria e estava bêbada tentando apagar as próprias magoas. Ela estava com problemas na família, imaginando que a filha via coisas, o marido a culpando por coisas que fugiam do controle dela e tendo sua personalidade afogada num mundo que não era dela.
Mas é nesse momento que ela brilha, quando a Holly invade o banheiro de sua mãe, chorando e com medo, a Karen tenta a consolar achando que era só um pesadelo, mas ela não é um homem insensível, ela é uma mãe atenta e que ama, ela percebe o corte na cabeça da filha e é nesse momento que ela percebe o demogorgon caçando em sua casa.
Mãe e filha se escondem, submersas na água do banho e, aquela que antes se afogava na invisibilidade, emerge como a heroína corajosa da família e o simbolismo dessa cena é arrebatador. Ainda embriagada, molhada e cansada do dia do trabalho doméstico, ela corre com a filha e enfrenta o monstro usando uma garrafa quebrada.
Essa mulher é uma aula de construção de personagem, ela é mãe, esposa e dona de casa, é feminina e, enfrentando um monstro extra-dimensional que foge à própria compreensão dela, combate seu medo, ela não é insensível, mas está disposta a proteger a filha com a própria vida.
A Holly não foi protegida por um tigre selvagem, esse era quem a perseguia, ela foi por uma galinha que protege seus pintinhos do gavião, que é fisicamente inferior ao seu algoz, mas é corajosa a ponto de ferir e até matar a fera.
A Karen é a grande heroína da série e talvez de todas as séries, porque ela não enfrentou apenas o vilão, mas suas limitações, ela não tinha poderes, armas ou treinamento militar avançado, ela tinha o amor de uma mãe. Foi uma guerreira sem precisar virar homem.
A Netflix está de parabéns. Eu não esperava ver algo tão bom antes mesmo da abertura do episódio e precisei parar para escrever, porque uma personagem humana e tão bem construída era exatamente o que faltava, inclusive nas produções da própria Netflix, como The Witcher e Resident Evil.