A arte de estar quebrado

2025-12-30

kintsugi

Recentemente eu tenho refletido sobre a natureza da personalidade, ou seja, quem nós somos de fato. Já comentei outras vezes que nós somos o que pensamos e não me afasto desse pensamento, mas creio que posso aprofundar um pouco mais o assunto.

Parte disso veio ao ler a passagem de Lamentações 3, especificamente o verso 21, onde o profeta Jeremias fala sobre "trazer à memória". Esse é o termo que precisei meditar pra entender um pouco mais quem somos.

Por que "trazer"? Isso é algo ativo e sempre imaginei que a memória nos afetasse e não nós a ela. Foi quando percebi que a memória não existe até o momento em que a criamos, isto é, quando lembramos dela.

Eu sempre me questionei o motivo da memória não ser confiável, duas pessoas presenciando o mesmo fato lembram dele de formas diferentes, não deveria ser assim se a memória fosse uma simples "fotografia" do momento. Mas não é, ela é mais como um quadro pintado quando se lembra.

Ou seja, a memória não existe em si, ela é criada e é isso que faz com que a lembrança de uma pessoa seja diferente da de outro e até da mesma pessoa em outro instante. Pois ela foi criada ao ser lembrada.

Nós só conseguimos lembrar, e reviver a sensação, porque aprendemos ela com tal intensidade que conseguimos recriar o momento na nossa mente. Não é o mesmo que olhar o passado, é o criar no presente.

Nisso, nossa personalidade pode ser definida como aquilo que aprendemos e isso não é apenas de forma racional e nem todo aprendizado é sobre algo bom, muitas vezes aprendemos que as pessoas podem nos jogar ao chão e nos destruir, não porque a porcelana foi fraca, mas porque o mundo às vezes cai com força demais.

Nós podemos aprender o medo e a coragem ou o amor e a desilusão, podemos aprender sentimentos tanto quanto pensamentos e todas essas coisas moldam como veremos o mundo e a nós mesmos. Mas isso não é um ponto final.

Na cultura nipônica há o conceito do kintsugi, que é uma arte de restaurar porcelana quebrada com ouro. Aquilo que poderia se considerar um lixo, agora é arte pura e valiosa.

Assim somos nós, que a vida pode ter nos feito sofrer tanto que a única coisa que conseguimos lembrar é a desesperança, mas o profeta nos exorta a trazer à memória o que nos dá esperança. No contexto dele era sobre Israel e o Senhor, mas no nosso pode ser aprender que o passado não nos define, mas como nós o recriamos.

Toda porcelana um dia será quebrada, se já não o foi, e os remendos não são marcas de repugno, mas sinal do desejo. O desejo não é de se manter inteiro, mas de valer mais e ser especial. Todos nós carregamos essa cola dourada que é a resiliência de passar por momentos tenebrosos, não há nada do que se envergonhar, isso é ouro.